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quinta-feira, 30 de junho de 2016

O CEARÁ POR INTEIRO NAS FOTOGRAFIAS DE MAURÍCIO ALBANO



Panoramas – Ceará por inteiro, livro de fotografias de Maurício Albano, abre-se como um convite para as paisagens vastas. Desde sua capa, os elementos visuais explorados pelo fotógrafo na captação e na representação de um Ceará “por inteiro” são anunciados: a linha do horizonte divide a paisagem entre terra e céu, entre água e ar, entre o malhado e o seco, entre luz e sombra, entre o próximo e o distante de quem olha.
As imagens são panorâmicas, formato relativamente incomum para um livro de fotografias, o que provocou uma solução bem interessante para a edição. Diferentemente da maioria das publicações nessa área (que seguem um modelo convencional de forma e tamanho de livro), adota um outro modelo de manuseio por parte do leitor: em formato retangular (40 cm de largura e 18 cm de altura) o livro abre para cima, como se fosse um calendário de mesa. Isso potencializa a observação das fotos, pois cada uma aparece inteira – às vezes duas – numa única página, sem a interferência da divisão de uma página para outra (que, nos livros em formato usual, corta a fotografia em duas na verdade) ou sem o recurso da página dobrada para abrigar uma fotografia (quando uma página não é o suficiente para conter uma imagem maior).
Dividido em quatro partes, Maurício Albano dá conta de paisagens e tipos humanos emblemáticos do Ceará: “Litoral”, “Sertão” e “Serras” trazem ícones da paisagem cearense, como as praias, as dunas e os mangues litorâneos com sua biodiversidade característica; a caatinga, os monólitos do Sertão Central, as fazendas e o casario ainda preservados de algumas cidades sertanejas e os açudes; as cachoeiras serranas, os aspectos montanhosos e fauna e flora das regiões altas do estado. Na última parte – “Cultura” – há belos registros de bumba meu boi, festas de Santo Antônio, produção de cerâmica, fabricação de rapadura e de carne de sol, farinhada, preparo de tapioca, debulhar do feijão verde, entre tanta coisa que ainda caracteriza o cotidiano de diferentes partes do Ceará.


 
A impressão de variedades de luz aponta para as tomadas terem sido feitas em diferentes épocas do ano e em diferentes momentos do dia – da madrugada e do início da manhã até a noite de lua alta. As imagens vão dos anos 1970 aos anos 2000 (a maioria desses últimos); e quando foram publicadas (final de 2014), fruto de um projeto pessoal, Albano já tinha mais de 40 anos de carreira como fotógrafo. Pouco tempo depois do lançamento, o artista faleceu (março de 2015), antes de completar 70 anos, com antecedente renome nacional pelo trabalho de captação dos lugares do Ceará e do cearense bem como sua diversidade cultural, o que foi registrado em outros livros seus, em exposições, em colaborações para jornais e revistas, entre outros trabalhos.

Tal renome é reconhecido por quem escreveu os textos presentes em Panoramas – Ceará por inteiro: o jornalista Flávio Paiva e o pesquisador e escritor Gilmar de Carvalho, que assinam textos de apresentação que completam a edição primorosa da Terra da Luz Editorial.
O Ceará mostrado nas imagens é belo, de cores fortes (algumas vezes, estranhas), de paisagens impressionantes (algumas delas inusitadas, para mim, que não viajei o suficiente para conhecer meu próprio estado) e lugares convidativos. Mas também o povo cearense é registrado em muitas das fotografias, quer seja em suas atividades mais prosaicas realizadas pela gente simples, quer seja em suas atividades culturais praticadas na base da alegria das pessoas. Observar os trabalhos de Maurício Albano é um exercício de se reconhecer como cearense, como parte de cada uma das panorâmicas desse “Ceará por inteiro” que nos cabe.


ALBANO, Maurício. Panoramas – Ceará por inteiro. Fortaleza: Terra da Luz Editorial, 2014. 120 p.


Miguel Leocádio Araújo

domingo, 5 de junho de 2016

Revista Mutirão #2 - Parte 1



Há pouco tempo, entrei em contato com o nº 2 da Revista Mutirão, feita em Fortaleza e lançada em 2016. A revista é de literatura (poesia e prosa) e também de artes visuais (fotografia, desenho, colagem, poesia visual, experimentações...), com capa do maravilhoso artista José Tarcísio e textos de artistas jovens, tudo organizado pelo Poeta de Meia-Tigela. A Mutirão #2 está montada como num quebra-cabeça, já sugerido na folha de rosto. Aqui o mesmo desenho da capa reaparece “desmontado” como que em peças, para recortar, remontar e colar ao final da revista em espaço indicado para isso, talvez ao gosto do freguês.

Essa é a concepção material da revista: pode-se seguir a disposição dada pelo organizador ou pode-se abrir em qualquer página e fruir o texto que encontrar, quer este seja um texto verbal ou visual. No entanto, em qualquer dos casos, uma ideia se impõe. Explico.
Nenhum dos textos tem indicação da autoria na própria página, mas só ao final, numa “escala”, que aponta somente os nomes dos artistas e a página de onde está o trabalho. Esse recurso me obrigou – curioso que sou – a manipular a revista de frente pra trás, de trás pra frente, num ir e vir próprio de quem quer saber quem escreveu aquele texto de que gostei (ou de que não gostei). Fico com a impressão de que o editor queria que a revista fosse encarada como um objeto cuja materialidade pudesse fugir aos padrões usuais de leitura, ou seja, à maneira relativamente linear e sequencial de ler textos em revistas. Obviamente, a quebra desses padrões não é obrigatória, pois todo leitor tem uma margem de liberdade de condução de sua relação com o objeto a ser lido.
Os temas, as linguagens e os estilos são variados, heterogêneos. E tem muita  coisa bacana nessa revista. Como o editorial cheio de trocadilhos com os textos e os estilos dos autores, feito com o bom humor do Raymundo Netto, a quem agradeço por ter me apresentado à revista e pela gentileza costumeira, coisas próprias de quem sabe conviver. Lembrou-me alguns textos não programáticos em prosa da época de forte atuação dos concretos, quando os Campos e Pignatari (entre outros) ocupavam a imprensa brasileira com textos com recursos inovadores, não apenas no que concerne às questões gráficas, mas também no tocante à escolha vocabular.
Da capa de José Tarcísio aos outros quatro trabalhos visuais dele publicados na revista, são, como informa Raymundo Netto, “decalques impressos diretamente de superfícies irregulares, como troncos de árvores e gravetos”, formando um experimento intitulado pelo artista de “Em busca da matriz”. Faço uma ressalva ao fato de que estas informações, embora preciosas e interessantes, poderiam ser acrescidas de informações mais técnicas (e precisas), tais como materiais, dimensões, técnica utilizada, etc. – coisas que podem interessar a quem tenha o espírito curioso como o meu em relação aos trabalhos de artes visuais que ganham materialidade e registro nas páginas de uma revista. Aliás, o mesmo vale para os outros trabalhos de artes visuais de Glauco Sobreira, Nataly Pinho e Pedro Humberto.
Já a li toda e ainda vou preparar um texto para este blog sobre os textos de poesia e prosa, só pra organizar as ideias. Para o momento, destaco: os textos do Luciano Bonfim (cujo livro de histórias e considerações “Móbiles”, de 2007, Edições do Caos, Fortaleza, recomendo); os textos desafiadores da Nina Rizzi, sobretudo o poema “noturno do benfica”, uma lindeza; o texto também desafiador de Talles Azigon “Carta de destruição ou Praça Portugal”. Mas não só. Mutirão #2 está cheia de surpresas boas.

MEIA-TIGELA, Poeta de (Org.). Mutirão #2. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2016.

domingo, 10 de janeiro de 2010

QUINTAN(ARES) DA CRIAÇÃO

Estes últimos dias, estudando para dois concursos, me peguei relendo poemas de Mário Quintana, e lembrei que havia escrito um artigo pequeno para o Jornal O Povo, em julho de 2006. Daí fui reler o texto, fiz algumas modificações e coloco-o aqui, em forma de homenagem, incapaz que sou de ser poeta e preguiçoso que tenho estado para escrever coisa nova.




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Na primeira estrofe do poema que abre o livro de estréia de Mario Quintana, Rua dos cataventos, encontramos versos cujo conteúdo poderia servir de pórtico principal para o entendimento de parte de sua produção:
“Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!”
Apesar de um certo perfume tradicionalista para um poeta que estreava em livro no ano de 1940 (quando as sucessivas revoluções do Modernismo já iam longe), de qualquer modo, lembrar estes versos é chamar a atenção para o fato de que o poeta, em toda a sua extensa obra, deixou textos que expõem os deslumbramentos e os impasses de quem escreve, muitas vezes representando a situação do criador diante da produção de seus textos.



Do pórtico principal, a produção de metapoemas, que atravessa toda a trajetória de Quintana, pode ser tomada como uma sala de estar, na qual o leitor se ambienta com os mistérios da criação poética, suas seduções e seus modos de existir. É neste lugar que este leitor pode ser convidado a conhecer outras partes do edifício lírico construído ao longo de mais de 50 anos de vida literária, além de constatar que mesmo as agruras do ato de poetar (“Uma palavra só / Pode tudo perder para sempre...”) transformam-se em motivo para uma comunicação intelectual e afetiva com os leitores, como ele deixa claro num fragmento de Sapato florido: “O Poeta, para entrar em contato com outros homens, põe-se a fazer poemas.” Tal idéia revela a consciência das funções da literatura e da leitura. E ele soube explorá-la (esta consciência) como uma das vertentes importantes de sua obra, em consonância inclusive com a tendência da lírica no século XX de pensar a criação poética ou de problematizá-la: a metalinguagem passa a ser uma conquista legítima dos criadores (não apenas uma possibilidade lírica entre outras que um autor poderia ou não escolher), cada vez mais preocupados com o poema, enquanto artefato que incorpora uma compreensão emotiva da existência. Mario Quintana entre eles.
Mas Quintana amplia essa dimensão para um entendimento prático do processo de contato entre leitor e poema, talvez por causa de seus longos anos de trabalho junto à editora Globo, de Porto Alegre, onde começou como desempacotador da seção de livros estrangeiros para chegar a ser um de seus mais ilustres tradutores, além de ter editado ali a maioria de seus livros.
Em outro trecho de Sapato florido, o poeta fala dos livros de poesia, que "devem ter margens largas e muitas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-las de desenhos (...) que passarão também a fazer parte dos poemas..." Ao mesmo tempo em que demonstra conhecer o papel da materialidade dos livros de poesia, sugere uma apresentação da página que possibilite a intervenção mais efetiva do leitor no texto, renovando uma idéia acerca da comunicação poética: poeta e leitor, por atuações diferenciadas, podem produzir um mesmo texto, pois converge-se para um só objetivo, o jogo lírico entre entender e sentir.
Vale a pena lembrar os diálogos que Mario Quintana estabelece com outras linguagens e outros autores. No primeiro caso, a música ressalta como uma preferência não só no nível formal, mas também no temático: há poemas que se referem a canções, noturnos, cânticos, sonatas, jazz... Já no segundo, temos as constantes intertextualidades com os autores de sua convivência, inclusive os estrangeiros. Este último aspecto se conjuga bem com a já anunciada atividade de tradutor. Entre os muitos que verteu para o português, estão Balzac, Maupassant, Proust, Virginia Woolf, Aldous Huxley...
É certo que muitos escritores de sua geração recorreram a este trabalho não por diletantismo, mas pela necessidade, já que viver de direitos autorais sobre livros de poesia já era algo pouco crível naquela época. Sobre isso Quintana também escreveu, demonstrando de novo uma consciência de que o fazer poético passa por estas questões. Em “Pequena tragédia brasileira” (de Caderno H), o poeta ironiza: “A Bem-Amada queria devorar o coração do poeta. - Não, disse ele - só terás um pedacinho... Porque noventa por cento pertence aos editores.”
O poema, os leitores, os livros, as páginas, os editores e os valores implicados no universo da criação, nada disso escapou à lírica de Quintana; são temas construídos numa mesma base: como se dá ares à criação? Como ela acontece e se estabelece no trânsito entre autor, textos e leitores? O poeta metaforizou sobre isso, algumas vezes com uma irônica crueldade, como nos versos finais de “O poema”, de O aprendiz de feiticeiro, em que brada: “Para bem das águas e das almas/ Assassinemos o poeta.” Para os leitores de Quintana, isso é impossível e indesejável: uma vez tendo passado pelo pórtico principal e pela sala de estar, permanecemos em seu edifício poético e dele tomamos posse, junto com o poeta que vive.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ENTREVISTA NO BLOG DA EDIÇÕES DEMÓCRITO ROCHA

No blog da Edições Demócrito Rocha, o jornalista Henrique Araújo (não, ele não é meu parente) publicou uma entrevista sobre a materialidade dos livros, tema que interessa enormemente, sobretudo quando se fala que o livro está em vias de ser definitivamente sepultado pelas caixinhas eletrônicas que acumulam palavras de não sei quantos mil autores. Não pedi autorização nem ao Henrique, nem à Fundação, mas a entrevista está aqui.

AS CURVAS DO LIVRO

Alguém aqui compra livro porque, de passagem por alguma estante abarrotada de títulos, se sentiu atraído por aquele de capa vermelha e letras em alto relevo? Ou, entre os volumes espalhafatosos empilhados na entrada da loja, gostou daquele de designer sóbrio, num preto fosco e letras pequenas? Antigamente, uma resposta positiva a essas perguntas seria acompanhada de leve porção de vergonha. Afinal, foi-se o tempo em que o corpo do livro, seu suporte físico, era aspecto subestimado.
Para o professor de literatura e pesquisador Miguel Leocádio, hoje as editoras têm tanto cuidado com a “materialidade do livro” quanto com o seu conteúdo. Mesmo as pequenas casas editoriais vêm investindo bastante no desenho gráfico dos livros. Como exemplo, ele cita as editoras Cosac Naify e Demócrito Rocha. Em entrevista ao blog, Miguel explica por que a materialidade é importante. Longe de constituir um dado irrelevante da equação que descreve o interesse pela leitura, é ela a grande responsável pela atração primeira, desempenhando uma função que posteriormente ficará inteiramente a cargo da palavra: a de seduzir constantemente o leitor. (Henrique Araújo)
Como esse corpo físico do livro se relaciona com as ideias que ele transporta?
Miguel Leocádio Araújo – Em geral, esse corpo físico (que em geral chamo de “materialidade dos livros”) pode ou não se relacionar com as ideias, mas quando ocorre uma associação, desde que bem realizada, acaba sendo um elemento a mais para atrair ou instigar o leitor. Um exemplo disso é o projeto gráfico de Suzana Paz para o livro Vende-se uma família, de Socorro Acióli (Edições Demócrito Rocha, 2007). O livro foi projetado de tal forma que o leitor tem a impressão de estar com um objeto antigo em suas mãos; e esse tipo de associação não vem apenas pela história em si, mas também pela coloração do papel, pelo estilo das ilustrações e pela capa, elementos que servem de complemento à trama, que se passa no século XIX. Por outro lado, há materialidades que se distanciam das ideias veiculadas pelo livro, mas permanecem atraentes, pelo cuidado com que são tratadas pelos profissionais que trabalham no processo de elaboração do produto. Portanto, uma materialidade que é criada para valorizar um texto em livro depende da sensibilidade e do envolvimento do profissional com as ideias do autor, mesmo que para se distanciar delas.
Como se define a materialidade de um livro?
Miguel – A partir da necessidade de colocar um produto no mercado que tenha capacidade de seduzir um leitor também por meio de sua conformação concreta. Aquela ideia de que um livro muito bem cuidado é artefato para bibliófilos ou para colecionadores de livros de arte já foi superada. Aliás, num tempo em que os textos e as idéias ganharam o espaço virtual, a indústria do livro tem repensado as maneiras de oferecer seus produtos aos consumidores, o que não é novo, pois tem dependido muito dos avanços tecnológicos no campo da impressão, na fabricação de papel, no uso de pigmentos e materiais diversos (e, em alguns casos, inusitados). Quando se lança um material novo que pode ser aproveitado em objetos impressos, experimenta-se, a título de novidade, posteriormente tornando-se algo generalizado na indústria do livro. O que me interessa especialmente é a maneira como as profissionais das artes gráficas encontram soluções as mais diversas para tornar o livro uma experiência completa: visual e tátil, prazerosa de ler, ver e tocar.
Esse aspecto já foi um dia subestimado?
Miguel – Sim, isso já foi muito subestimado e, em muitos casos, ainda é. Quanto mais simples e com menos recursos se fabrica um livro, mas barato ele se torna, em tese, embora isso não diminua o valor do texto que ele contém. Dou como exemplo as editoras francesas Éditions des Femmes, Tel, Gallimard ou Les Éditions de Minuit, bem como as almãs Reclam ou Suhrkamp, que têm coleções inteiras com pouquíssimas ilustrações (ou nenhuma), em geral apenas na capa, usam papel barato (muitas vezes, assemelhando-se ao papel jornal), já que têm como carro-chefe de sua produção os livros de bolso. Mas isso ocorre porque o público dessas editoras é cativo, o que garante as vendas, sem maiores necessidades de investimentos em atrativos gráficos, o que não quer dizer que não existam nesses países editoras que tenham uma enorme preocupação com a materialidade dos livros e suas inovações.
Hoje, que importância tem?
Miguel – Hoje a importância da materialidade é enorme. Há autores que se envolvem no processo de “formatação” gráfica do livro. No caso, por exemplo, dos livros destinados ao público infanto-juvenil, os investimentos são altos, fixando cada vez mais a ideia de um livro de texto bom e de apresentação gráfica atraente. Afinal de contas, um livro é um objeto com o qual as crianças podem passar muitas horas, quer seja por ser um paradidático adotado por uma escola, quer seja por prazer de ler mesmo; logo, quanto mais prazeroso for estar com um livro em mãos, mais o texto a ser lido ganha. É claro que esses investimentos extrapolam o universo da literatura infanto-juvenil. É possível encontrar hoje até livros acadêmicos com uma apresentação gráfica primorosa.
Dê exemplos de obras que se destacam nesse campo.
Miguel – Os livros da Cosac Naify, em geral, são exemplares nesse sentido. A coleção Fábrica de Leitores das Edições Demócrito Rocha é primorosa, bem como os livros de poesia infantil da gaúcha Editora Projeto também são muito bonitos. Ultimamente, no Ceará, tenho percebido uma preocupação dos autores com a materialidade do livro. Eu destacaria a novela de Mariana Marques, Transatlântico, pela editora La Barca; o livro “triplo” de Júlio Lira, que envolve três gêneros diferentes (conto, poesia e crônica), num projeto gráfico absolutamente inovador, que você manipula meio de maneira muito lúdica, virando a posição do objeto, para poder iniciar a leitura de cada um dos três livros contidos num mesmo artefato.
Visite o blog das Edições Demócrito Rocha AQUI.


sábado, 5 de setembro de 2009

Materialidades 1 - TRANSATLÂNTICO, de Mariana Marques


Antigamente, ao ver alguém com livro bonito, bem cuidado e diferente nas mãos, era comum ouvir de alguém que se pretendia “intelectual de verdade”: “Ah, mas isso aí é só pra enfeitar estante...”. Pois bem, depois que as letras e as palavras foram ganhando materialidades virtuais, sem a mesma concretude do objeto, o livro teve que se reinventar, exatamente por meio de um trabalho que associa palavra e arte, no trabalho de escritores e profissionais e artistas da área gráfica, atiçando ainda mais o “amor táctil”, sobre o qual falou uma vez Caetano Veloso.

Quem frequenta este blog sabe que, vez por outra, tenho me manifestado a respeito da materialidade dos livros, assunto que me interessa desde os tempos do Mestrado em Literatura Brasileira (UFC); aliás assunto que aprendi com Clarice Lispector, que de certa forma me mostrou que as diversas materialidades do livro falam tanto quanto os textos que eles contêm. E, sim, eu gosto de livros bonitos. Definitivamente. E eles enfeitam minhas estantes, sim, mas também enfeitam o meu tempo livre, ao dedicar-lhes uma leitura prazerosa, sonhadora e atenta. Sempre nesta ordem. Daí é que vem esta ideia fixa, o livro como objeto, e uma vontade, escrever sobre isso. E começo.

O primeiro escolhido é uma novela: Transatlântico, de Mariana Marques (Ed. La Barca, Fortaleza, 2009, 56 p.), que descobri neste ano de 2009 e cujo texto devorei muitas vezes, respirando toda a sua poesia verbal (o que não minimiza o fato de ser uma narrativa em prosa), ao lado da poesia de uma composição gráfica pensada e arquitetada artisticamente (primoroso projeto gráfico de Álvaro Beleza). O livro foi feito como a lembrar os passaportes e os moleskines, numa associação clara às ideias de viagem, de travessia e de ultrapassagem do infinito (sugeridas pelo próprio título da novela) e de registro (a conformação concreta do objeto que contém esta narrativa).
A capa, elaborada num tipo de material que talvez seja o mesmo das capas de passaportes (percalux), é num azul marinho bem escuro, remetendo ao oceano mais profundo e subjetivo, quem sabe imaginário. O título vem gravado no centro, em letras douradas, sem menção ao nome da autora, conformando a preponderância do objeto à deriva, no meio de tudo.

Abrindo o livro, as páginas (& folhas) da novela são organizadas em segmentos (ou, se quiserem, capítulos) todos nomeados com a mesma economia lírica que atravessa o texto. Entremeando cada segmento, uma vinheta emoldurando seu título. Estas vinhetas representam imagens diversas, apresentadas em cores esmaecidas e tons pastéis, que me fizeram lembrar a memória envolta numa espécie de halo que vai apagando a nitidez das lembranças de coisas vividas ou inventadas.
A apresentação material de Transatlântico provoca a ideia de envolver a lírica narrativa de Mariana Marques numa experiência concreta com a delicadeza. Imagine ler esse trecho, num livro com a aparência que descrevi: “vejo as despedidas de perto e o desespero contido e todas as coisas que se puseram a perder junto à tentativa (do viver e do chorar)”.
Ler assim é um mergulho em imagens de nuvens.

[MARQUES, Mariana. Transatlântico. Fortaleza: La Barca, 2009]

sábado, 11 de julho de 2009

MATERIALIDADE DOS LIVROS

Desde que fiz meu mestrado em Literatura Brasileira, algo me intriga bastante: a tendência de uns tempos para cá de surgirem livros que subvertem o formato convencional do que todo leitor imagina como um "livro". Daí me veio a idéia de falar sobre esse assunto. Na minha dissertação de mestrado, que era sobre Clarice Lispector, já toquei neste assunto do livro como objeto cuja materialidade propõe significações, algumas vezes muito próximas do texto que apresenta, outras nem tanto.

Mas este meu interesse se ampliou e acabou que foi virando uma espécie de pesquisa informal, que vai se configurando ao sabor do tempo. Nos últimos dois anos, sempre que encontro algum livro (de preferência prosa ou poesia, embora não exclua necessariamente outras vertentes), adquiro e começo a refletir sobre eles.

A partir destas aquisições, surgiu-me a idéia de começar a ler estes livros no que os textos podem oferecer como sentido, mas também "lendo" a materialidade destes livros, como algo que "diz" coisas.

então, se você lê este blog e sabe de algum livro que se enquadre numa definição de formato inusitado, indique-o, pois quero muito formar um acerto com experiências materiais de diferentes procedências.

Agradeço.


sexta-feira, 10 de julho de 2009

FRAN MARTINS: MANIPUEIRA (CONTOS DO JUAZEIRO DO PADRE CÍCERO)


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Muitas pessoas podem até nunca ter ouvido falar em Fran Martins (1913-1996) (e isso não quer dizer muita coisa – outro dia uma estudante universitária de um curso da área de ciências humanas me perguntou quem havia sido Cecília Meireles...). Ainda assim, muitas pessoas da área jurídica sabem quem foi ele pelos livros jurídicos que escreveu. E ainda há as pessoas que lidam com literatura produzida no Ceará, que têm alguma idéia do que ele fez.
Então, quando se diz alguma coisa sobre Fran Martins e sua literatura, é inevitável mencionar A rua e o mundo (1962) ou Dois de Ouros (1966), duas de suas conhecidas narrativas longas, através das quais o escritor representou a cidade do Crato, em seu cotidiano e seus dramas. Aliás, ao falar da ficção de Fran Martins, a menção à sua obra romanesca é algo natural, já que ele publicou mais romances que livros de contos.
Mas curiosamente o escritor iniciou e findou sua carreira como contista, com Manipueira (1934) e A Análise (1989), respectivamente. Além destes dois volumes de contos, ainda publicou Noite Feliz (1946), Mar Oceano (1948) e O Amigo de Infância (1960). Com cinco livros de contos, Fran confirma o que já constitui seu foco de interesse no romance: a representação da vida do interior cearense, sobretudo o Cariri, como uma espécie de microcosmo de uma realidade com aspectos comuns ao Nordeste como um todo.
Somente em A análise, temática e linguagem não se voltam para aspectos regionais, como observa Rachel de Queiroz, no texto de apresentação do livro, complementando que Fran teria atingido seu primor na construção do texto curto. Mas as suas outras coletâneas de contos abordam algum aspecto da mentalidade e da cultura nordestina, representando-as à maneira da principal tendência da ficção praticada por sua geração, conhecida como a do “Romance de 30”, da qual fez parte a própria Rachel, além de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, entre outros.
Estes autores preocuparam-se principalmente com certos problemas sócio-econômicos da região (seca, decadência da cultura açucareira, coronelismo, cangaço, fanatismo religioso, etc.) que, num primeiro momento, acreditavam ser os de maior alcance cultural; daí a necessidade de praticar uma narrativa mais aparentada com o Realismo-Naturalismo, atualizando-o criticamente, ancorando-se num compromisso de aderir à linguagem do povo.
O primeiro livro de Fran Martins afirma uma posição ligada à escrita de “invenção do Nordeste”, para usar uma expressão do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. (A invenção do Nordeste e outras artes, Cortez Ed., 2001), através da qual reavalia o discurso da ficção nordestina de 30, apontando sua heterogeneidade, mas também mostrando a possibilidade de uma intencionalidade comum aos diversos escritores e discursos. Este discurso de “invenção do Nordeste”, que se compromete com temas e imagens específicas, pode ser visto como um dado importante na compreensão de Manipueira, estréia de Fran Martins não só no conto, como na própria literatura “livresca”.







A sua mais recente edição (Ed. UFC, 1999) mantém, na sua materialidade, os elos da tradição que o próprio subtítulo (“Contos do Juazeiro do Padre Cícero”) demanda. Reproduz-se o fac-símile da ilustração de capa para a modesta primeira edição, em que um rosário se enrola a um punhal, de onde pingam algumas gotas de sangue. Já aqui tem-se a referência a duas idéias exploradas no livro: a religiosidade bastante marcada naquele espaço, sendo traduzida pelo autor em fanatismo religioso; a violência das relações sociais, em que a morte praticada por jagunços, capangas, cangaceiros e matadores é uma constante, algumas vezes corporificando a ambivalência de seu ambiente cultural: violento, porém devoto.
A maior parte dos dez contos enfeixados no volume traz personagens que correspondem a esta referencialidade. De um lado, o leitor depara-se com beatas e beatos, romeiros, tiradores de terços, devotos de toda ordem; sendo que o Padre Cícero está onipresente em todas as narrativas, como a anunciar a permanência praticamente icônica de sua figura no imaginário cultural nordestino, como espaço simbólico de produção de significados e imagens que, pela sua força, alcançam usos no cotidiano dos sujeitos que de alguma forma se utilizam dessa imagem e de seus possíveis significados.
Por outro lado, o leitor encontra Lampião e seus cangaceiros, jagunços “em formação”, “cabras” matadores (porém devotos), coronéis encomendadores de mortes, etc. O autor junta dois fenômenos que geram um amálgama temático polêmico: o fanatismo religioso associado à violência das relações sociais em geral, com incursões pelo imaginário do cangaço, que, por sua vez, volta seus poucos temores para o respeito à ordem religiosa e a seus representantes.
Ao ler estes contos, pode-se até não gostar, por causa da temática, mas o clima de tensão conseguido em cada um dos textos me diz que o contista atingiu algo bem interessante: sugerir que violência e religião passeiam inesperadamente juntas. Quer ideia mais atual?
Miguel Leocádio Araújo