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sexta-feira, 8 de julho de 2016

TODAS AS INFÂNCIAS EM UMA RACHEL



Em A casa dos benjamins, de Socorro Acióli, uma menina, Flora, conhece uma simpática senhora. Depois vem a saber: é Rachel de Queiroz. Juntas, visitam a hoje famosa casa onde a escritora cearense esboçou sua obra inaugural, O Quinze. Magicamente, uma Rachel idosa conduz a criança às imagens do passado, em que das palavras surgem cenas que se materializam no ar, compondo a atmosfera sofrida de um dos romances fundamentais da ficção nordestina da chamada Geração de 30.
A metáfora criada por Socorro Acióli não poderia ser mais apropriada: Rachel se aproximando da infância, tendo a literatura como vetor do trânsito entre presente e passado, entre o adulto e a criança. Este aspecto atravessa toda a obra da escritora, ora como uma espécie de reconstrução da experiência de formação da personalidade, ora como uma construção do espaço afetivo para elaborar espantos diante da percepção das coisas e do mundo.



É nesta perspectiva que se pode entender a “tangerine-girl”, personagem-título de um dos contos mais belos de Rachel. Nele, uma menina, em lances ágeis de uma imaginação irrequieta, vivencia sua primeira experiência com o outro, com o estranho (materializada pelo contato com os militares americanos e sua aeronave), no qual deposita sua possibilidade de emoção (a fantasia de estar sendo cortejada por um enamorado marinheiro), encontrando porém o desapontamento, fruto do experienciar um universo que não é seu.
Em As três Marias, a descoberta das coisas, da amizade e das relações sociais, nem sempre pautadas pela sinceridade ou pela cordialidade, encontra no espaço da escola o ambiente para a fabricação dos escudos que as futuras mulheres precisarão ter para impor sua subjetividade. E a criança, neste caso, não está livre das mazelas frequentemente atribuídas aos adultos, fazendo com que a narradora em dado momento afirme: “As crianças são ferozes, severas e absolutas como selvagens. Elas, menos que ninguém, compreendem e amam a inocência.”
Talvez este amor à inocência tenha colaborado na construção dos personagens crianças que aparecem de soslaio na secura de O Quinze, famintas, tristonhas, o olhar distante para um mundo no qual não se tem ânimo nem para fazer traquinagens. Centrado na experiência do sofrimento da fuga e do desvalimento, todo e qualquer personagem se apequena diante da magnitude do flagelo da seca, nivelando adultos e crianças à condição de arremedos de pessoa. Tal orientação romanesca não foi, de resto, individualizada na obra de Rachel, mas estava na maioria dos romancistas nordestinos de 30, que encontraram na infância uma confluência temática pouco repetida na literatura brasileira: Graciliano Ramos e os meninos de Vidas secas; Lins do Rego e seus meninos de engenhos; Jorge Amado e seus meninos capitães de areias, de ruas e ladeiras... Transfere-se para a prosa, assim, a experiência acumulada pela poesia das reminiscências de infância, sedimentada desde o Romantismo (quem não lembra “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu?) até a infância vertida em tintas modernistas de Bandeira e Drummond.
A infância comparece de forma variada na obra de Rachel, não constituindo uma imagem fixada rigidamente, mas em função das exigências da própria narrativa. Em Caminho de pedras, o garoto (filho de João Jaques e Noemi) fala pouco (muito mais com a mãe), mas tem a fundamental incumbência de comunicar a doença de Noemi ao pai. Curiosamente, neste romance, percebe-se (mesmo que não seja a temática central da obra) a variedade de experiências afetivas com a criança: ora o afeto domina, ora a repreensão; ora o menino brinca, sujo e descuidado; ora queda-se absorto diante da mãe acamada ou das conversas políticas do pai.
Essas experiências nos dão a dimensão da tentativa de Rachel de Queiroz em compor um quadro realista da infância na medida em que não se fixa em um modelo único de comportamento infantil, o que não lhe retira a condição de, como o Daniel de O menino mágico (um de seus livros infanto-juvenis), poder imaginar que para a criança qualquer mágica é possível. Porque poder ser criança é a própria mágica.

Miguel Leocádio Araújo

P.S.: Este artigo foi publicado no primeiro número da revista Letra, do jornal O Povo e da Fundação Demócrito Rocha, em meados de 2010, durante as comemorações do centenário de Rachel de Queiroz. O título original, que ora republico, tinha sido modificado para “Todas as infâncias da Rachel”, que constou na revista.

domingo, 12 de junho de 2016

CONFISSÕES DE (UM ANJO) ADOLESCENTE




Quem diz que os anjos não têm idade ficará contrariado e surpreso com Ângela e outros anjos, personagens de O anjo do lago, livro de Socorro Acioli (cuja 1ª edição é 2006) destinado ao público juvenil, na primorosa edição da Editora Biruta, de São Paulo, com ilustrações de Mariana Zanetti, nas quais o azul celeste, o verde água e o misterioso branco predominam.



Trata-se de uma poética e misteriosa história em torno das descobertas da protagonista, um doce anjo-menina-adolescente de 14 anos, que narra em primeira pessoa (quase como confissão num diário íntimo) sua experiência em desvelar os mistérios envolvidos na sua primeira missão: proteger o Lago dos Segredos, mote para a ideia de desvendamento que perpassa todo o livro e só se resolve inventivamente nas páginas finais, deixando curioso o leitor, à espera da resolução e do entendimento das razões que levam o sereno anjo protetor a realizar a tarefa de cuidar de um lago, quando a tradição reza que os anjos da guarda, pelo menos eles, protegem pessoas. Essa é apenas uma das surpresas reservadas pela narrativa de Socorro Acioli aos leitores habituados a histórias com personagens celestiais de tão alta estirpe, quer estejam elas nos livros, nos filmes (Win Wenders foi um dos cineastas que contou histórias com personagens anjos) ou em outras manifestações culturais, cujo leitmotiv circule em torno do que se passa em planos outros que não o da vida empírica, concreta, prática, cotidiana.
Aliás, a aproximação com o cotidiano é uma das virtudes de O anjo do lago. Os personagens, as ambiências e os objetos do dia-a-dia dos anjos são quase os mesmos que o leitor conhece. Ângela tem pais e passa a ter, no decorrer da trama, um "amigo" que pode vir a se tornar um algo mais... Sim, porque nesta história os anjos podem amar, já que são seres fadados ao amor àqueles ou àquilo que protegem. Neste sentido, o livro pode agradar aos jovens leitores em vias de descobrir o amor, a paixão... Mas não só.
Cada personagem-anjo guarda sua própria idiossincrasia. Por exemplo: o Sr. Bartolomeu é sério e sábio; a Sra. Berta é alegre e excêntrica, inclusive no vestir; o jovem anjo Tiago é belo e talentoso artista. A exposição das qualidades de cada um torna-se ainda mais cabível num universo em que esses seres etéreos escovam os dentes, limpam e organizam o espaço em que vivem, trabalham em instituições como o Departamento de Trabalhos e Missões ou o Departamento do Destino, espécies de repartições de utilidade pública, administradoras dos serviços prestados pelos anjos que descem à Terra para cumprir suas tarefas.
São anjos que até mesmo leem livros, inclusive a protagonista. Ela leva para sua primeira missão dezenas de livros que, no início de sua tarefa de proteger um lago cheio de segredos, servirão de fonte de prazer, de aprendizado e de alimento à sua imaginação adolescente. Esta dimensão da leitura se envolverá com a escrita, pois Ângela também escreve. Inicialmente um diário, depois... só Deus sabe o que escreverá, mas o fará bem, pois esse é o desvendamento de um dos segredos que a vivência na pequena ilha no meio do lago lhe proporcionará.
A temática da leitura na obra infanto-juvenil de Socorro Acióli não é inédita. Desde Bia que tanto lia (Ed. Demócrito Rocha, 2004), a escritora tem explorado os encantamentos do mundo da leitura, sobretudo no que diz respeito às personagens-crianças. O que diferencia este livro dos anteriores – É pra ler ou pra comer: A história da Padaria Espiritual para crianças (Ed. Demócrito Rocha, 2005), A casa dos benjamins (São Paulo, Ed. Caramelo, 2005), O peixinho de pedra (Ed. Demócrito Rocha, 2006) – é que a temática abordada se desloca do universo da cultura e da história cearenses para dar lugar a um voo bem mais livre em relação aos compromissos com o real empírico, no que concerne à adesão ao contexto histórico e aos costumes de um povo. Dessa forma, a escritora oferece uma narrativa que indicia suas habilidades em criar uma história que abre espaço para o inusitado da representação do possível, desobedecendo a rigidez dos desígnios miméticos da prosa de ficção que muitos insistem em preconizar.
Mesmo guardando certos elos com o real, até para poder angariar a cumplicidade dos leitores às situações vividas por Ângela, em O anjo do lago, a opção narrativa (e, neste caso, imaginativa) pelo universo etéreo dos anjos parece nos querer dizer que sobrevoar a história de Ângela é viajar nas asas da imaginação, dos segredos e dos desejos.

ACIOLI, Socorro. O anjo do lago. São Paulo: Biruta, 2006.

Miguel Leocádio Araújo & Daniele Barbosa Bezerra

[Obs.: Este texto, escrito a quatro mãos, foi publicado há dez anos (em 2006) no site Dobras da Leitura, de Peter O’Sagae, hoje convertido em blog. Fiz algumas pequenas alterações e mínimas atualizações no texto.]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

BREVE HISTÓRIA DA PADARIA ESPIRITUAL, DE SÂNZIO DE AZEVEDO


Conheci Sânzio de Azevedo, quando passei a cursar a disciplina de Literatura Cearense, por ele ministrada, no ano de 1992, no Curso de Letras da UFC. A sua empatia com os alunos era imediata. Começando o semestre letivo ainda meio tímido, logo passava às suas conhecidas brincadeiras, fazendo o estudo da literatura sair dos pedestais da sisudez, lugar no qual alguns insistem em mantê-la. A maneira brincalhona de ser cativava os alunos e parecia ser algo, de alguma forma, herdada da Padaria Espiritual, tema que estuda desde sempre. Tanto é que, recentemente, foi lançada a sua Breve história da Padaria Espiritual, em volume bem cuidado pelas Edições UFC (Fortaleza, 2011).

O livro reúne as qualidades antes mencionadas, constituindo uma verdadeira lição para os pesquisadores que se lançam no árduo trabalho de historiografia literária, mas não só. Trata-se de uma escrita que combina a leveza (o que torna a leitura agradável) com o detalhamento necessário a produções dessa natureza, sendo que a historiografia apresentada no livro de Sânzio não é a tradicional, unicamente amparada em datas e fatos. Ao contrário, o ensaísta entremeia suas descobertas ao trabalho interpretativo, já que não se furta a apenas transcrever poemas e trechos de outras produções, explicando-os, aclarando-lhes os sentidos, quer seja no contexto da atuação literária e social da Padaria, quer seja no âmbito da expressão textual em si.

Neste sentido, a historiografia e a crítica literária se irmanam para resultar num estudo que acena para possibilidades de leituras da tradição, dentro de perspectivas multifacetadas: a história literária não vive sem o exame acurado das realizações de seus atores (no caso, os padeiros) na cena literária à qual pertencem, mas também não existe sem a visão (por mais breve que seja) dos registros (propriamente literários ou não) deixados por estes mesmos atores.

Além disso, há a preocupação de, com esta Breve história da Padaria Espiritual, corrigir alguns equívocos que foram se arrastando ao longo do tempo, bem como de oferecer, aos leitores das novas gerações (que não tiveram ainda a oportunidade de conhecer o alentado estudo A Padaria Espiritual e o simbolismo no Ceará, também de Sânzio de Azevedo) uma iconografia da agremiação e, como documentação, um retrospecto redigido pelo próprio idealizador da Padaria.

Na ocasião do lançamento da Breve história, no dia 03/10/2011, no auditório da Livraria Cultura, em Fortaleza, pôde-se notar como o tema desperta interesse e como o nome de Sânzio de Azevedo convida as pessoas ao encontro: o auditório lotado, para ouvir (e rir com) as histórias da Padaria, contadas pelo autor, em seu bom humor de sempre, com mediação da também escritora Socorro Acióli, que foi premiada com É pra ler ou pra comer: A história da Padaria Espiritual para crianças (Fortaleza, Ed. Demócrito Rocha, 2005). Uma reunião de sorrisos, casos pitorescos, simpatia, prazer e alegria, como talvez esperado em um lançamento que tivesse como tema a famosa agremiação fortalezense.

A empatia do público com a Padaria é a mesma que os leitores/admiradores têm com Sânzio: em ambos percebe-se a leveza com que se trata de assuntos ligados à literatura, fazendo com que o texto literário chegue mais próximo das pessoas, sem o peso da sacralização.