No blog da Edições Demócrito Rocha, o jornalista Henrique Araújo (não, ele não é meu parente) publicou uma entrevista sobre a materialidade dos livros, tema que interessa enormemente, sobretudo quando se fala que o livro está em vias de ser definitivamente sepultado pelas caixinhas eletrônicas que acumulam palavras de não sei quantos mil autores. Não pedi autorização nem ao Henrique, nem à Fundação, mas a entrevista está aqui.
AS CURVAS DO LIVRO
Alguém aqui compra livro porque, de passagem por alguma estante abarrotada de títulos, se sentiu atraído por aquele de capa vermelha e letras em alto relevo? Ou, entre os volumes espalhafatosos empilhados na entrada da loja, gostou daquele de designer sóbrio, num preto fosco e letras pequenas? Antigamente, uma resposta positiva a essas perguntas seria acompanhada de leve porção de vergonha. Afinal, foi-se o tempo em que o corpo do livro, seu suporte físico, era aspecto subestimado.
Para o professor de literatura e pesquisador Miguel Leocádio, hoje as editoras têm tanto cuidado com a “materialidade do livro” quanto com o seu conteúdo. Mesmo as pequenas casas editoriais vêm investindo bastante no desenho gráfico dos livros. Como exemplo, ele cita as editoras Cosac Naify e Demócrito Rocha. Em entrevista ao blog, Miguel explica por que a materialidade é importante. Longe de constituir um dado irrelevante da equação que descreve o interesse pela leitura, é ela a grande responsável pela atração primeira, desempenhando uma função que posteriormente ficará inteiramente a cargo da palavra: a de seduzir constantemente o leitor. (Henrique Araújo)
Como esse corpo físico do livro se relaciona com as ideias que ele transporta?
Miguel Leocádio Araújo – Em geral, esse corpo físico (que em geral chamo de “materialidade dos livros”) pode ou não se relacionar com as ideias, mas quando ocorre uma associação, desde que bem realizada, acaba sendo um elemento a mais para atrair ou instigar o leitor. Um exemplo disso é o projeto gráfico de Suzana Paz para o livro Vende-se uma família, de Socorro Acióli (Edições Demócrito Rocha, 2007). O livro foi projetado de tal forma que o leitor tem a impressão de estar com um objeto antigo em suas mãos; e esse tipo de associação não vem apenas pela história em si, mas também pela coloração do papel, pelo estilo das ilustrações e pela capa, elementos que servem de complemento à trama, que se passa no século XIX. Por outro lado, há materialidades que se distanciam das ideias veiculadas pelo livro, mas permanecem atraentes, pelo cuidado com que são tratadas pelos profissionais que trabalham no processo de elaboração do produto. Portanto, uma materialidade que é criada para valorizar um texto em livro depende da sensibilidade e do envolvimento do profissional com as ideias do autor, mesmo que para se distanciar delas.
Como se define a materialidade de um livro?
Miguel – A partir da necessidade de colocar um produto no mercado que tenha capacidade de seduzir um leitor também por meio de sua conformação concreta. Aquela ideia de que um livro muito bem cuidado é artefato para bibliófilos ou para colecionadores de livros de arte já foi superada. Aliás, num tempo em que os textos e as idéias ganharam o espaço virtual, a indústria do livro tem repensado as maneiras de oferecer seus produtos aos consumidores, o que não é novo, pois tem dependido muito dos avanços tecnológicos no campo da impressão, na fabricação de papel, no uso de pigmentos e materiais diversos (e, em alguns casos, inusitados). Quando se lança um material novo que pode ser aproveitado em objetos impressos, experimenta-se, a título de novidade, posteriormente tornando-se algo generalizado na indústria do livro. O que me interessa especialmente é a maneira como as profissionais das artes gráficas encontram soluções as mais diversas para tornar o livro uma experiência completa: visual e tátil, prazerosa de ler, ver e tocar.
Esse aspecto já foi um dia subestimado?
Miguel – Sim, isso já foi muito subestimado e, em muitos casos, ainda é. Quanto mais simples e com menos recursos se fabrica um livro, mas barato ele se torna, em tese, embora isso não diminua o valor do texto que ele contém. Dou como exemplo as editoras francesas Éditions des Femmes, Tel, Gallimard ou Les Éditions de Minuit, bem como as almãs Reclam ou Suhrkamp, que têm coleções inteiras com pouquíssimas ilustrações (ou nenhuma), em geral apenas na capa, usam papel barato (muitas vezes, assemelhando-se ao papel jornal), já que têm como carro-chefe de sua produção os livros de bolso. Mas isso ocorre porque o público dessas editoras é cativo, o que garante as vendas, sem maiores necessidades de investimentos em atrativos gráficos, o que não quer dizer que não existam nesses países editoras que tenham uma enorme preocupação com a materialidade dos livros e suas inovações.
Hoje, que importância tem?
Miguel – Hoje a importância da materialidade é enorme. Há autores que se envolvem no processo de “formatação” gráfica do livro. No caso, por exemplo, dos livros destinados ao público infanto-juvenil, os investimentos são altos, fixando cada vez mais a ideia de um livro de texto bom e de apresentação gráfica atraente. Afinal de contas, um livro é um objeto com o qual as crianças podem passar muitas horas, quer seja por ser um paradidático adotado por uma escola, quer seja por prazer de ler mesmo; logo, quanto mais prazeroso for estar com um livro em mãos, mais o texto a ser lido ganha. É claro que esses investimentos extrapolam o universo da literatura infanto-juvenil. É possível encontrar hoje até livros acadêmicos com uma apresentação gráfica primorosa.
Dê exemplos de obras que se destacam nesse campo.
Miguel – Os livros da Cosac Naify, em geral, são exemplares nesse sentido. A coleção Fábrica de Leitores das Edições Demócrito Rocha é primorosa, bem como os livros de poesia infantil da gaúcha Editora Projeto também são muito bonitos. Ultimamente, no Ceará, tenho percebido uma preocupação dos autores com a materialidade do livro. Eu destacaria a novela de Mariana Marques, Transatlântico, pela editora La Barca; o livro “triplo” de Júlio Lira, que envolve três gêneros diferentes (conto, poesia e crônica), num projeto gráfico absolutamente inovador, que você manipula meio de maneira muito lúdica, virando a posição do objeto, para poder iniciar a leitura de cada um dos três livros contidos num mesmo artefato.
Visite o blog das Edições Demócrito Rocha AQUI.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
DE UMA PÁGINA DE ANA CAROLINA BEDÊ
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Alguns amigos conhecem as minhas descobertas atuais. Ou redescobertas. Le temps retrouvé, mas na perspectiva do futuro do presente, o que nem sempre é possibilidade, mas condição de existência.
Relendo Semana (São Paulo: Hedra, 2007), o projeto amarelo-ouro organizado por Natércia Pontes (cujos soluços escuto com o sangue pulsando, solidário), paro em duas linhas de Ana Carolina Bedê, que imediatamente serviriam de epígrafe a um roman-fleuve que nunca virei a escrever, por pura preguiça ou desconhecimento de causa. A “simpleza” (que tomo de empréstimo; com licença, Ana Carolina) das duas linhas me trouxe a sensação imediata de imaginar as possibilidades de beleza da fala que precisa ser completada, mas que permanece flutuando no silêncio da página. Veja só:
“Com a simpleza de seu brilho veio pedir.
― Brilha mais anel, mais, que ela te aceita.”
(Do conto “Será que algum dia vira canção?”, de Ana Carolina Bedê)
E virou canção no meu ouvido. E um espanto olhando pra folha.
sábado, 5 de setembro de 2009
Materialidades 1 - TRANSATLÂNTICO, de Mariana Marques
Antigamente, ao ver alguém com livro bonito, bem cuidado e diferente nas mãos, era comum ouvir de alguém que se pretendia “intelectual de verdade”: “Ah, mas isso aí é só pra enfeitar estante...”. Pois bem, depois que as letras e as palavras foram ganhando materialidades virtuais, sem a mesma concretude do objeto, o livro teve que se reinventar, exatamente por meio de um trabalho que associa palavra e arte, no trabalho de escritores e profissionais e artistas da área gráfica, atiçando ainda mais o “amor táctil”, sobre o qual falou uma vez Caetano Veloso.
Quem frequenta este blog sabe que, vez por outra, tenho me manifestado a respeito da materialidade dos livros, assunto que me interessa desde os tempos do Mestrado em Literatura Brasileira (UFC); aliás assunto que aprendi com Clarice Lispector, que de certa forma me mostrou que as diversas materialidades do livro falam tanto quanto os textos que eles contêm. E, sim, eu gosto de livros bonitos. Definitivamente. E eles enfeitam minhas estantes, sim, mas também enfeitam o meu tempo livre, ao dedicar-lhes uma leitura prazerosa, sonhadora e atenta. Sempre nesta ordem. Daí é que vem esta ideia fixa, o livro como objeto, e uma vontade, escrever sobre isso. E começo.
O primeiro escolhido é uma novela: Transatlântico, de Mariana Marques (Ed. La Barca , Fortaleza, 2009, 56 p.), que descobri neste ano de 2009 e cujo texto devorei muitas vezes, respirando toda a sua poesia verbal (o que não minimiza o fato de ser uma narrativa em prosa), ao lado da poesia de uma composição gráfica pensada e arquitetada artisticamente (primoroso projeto gráfico de Álvaro Beleza). O livro foi feito como a lembrar os passaportes e os moleskines, numa associação clara às ideias de viagem, de travessia e de ultrapassagem do infinito (sugeridas pelo próprio título da novela) e de registro (a conformação concreta do objeto que contém esta narrativa).
A capa, elaborada num tipo de material que talvez seja o mesmo das capas de passaportes (percalux), é num azul marinho bem escuro, remetendo ao oceano mais profundo e subjetivo, quem sabe imaginário. O título vem gravado no centro, em letras douradas, sem menção ao nome da autora, conformando a preponderância do objeto à deriva, no meio de tudo.
Abrindo o livro, as páginas (& folhas) da novela são organizadas em segmentos (ou, se quiserem, capítulos) todos nomeados com a mesma economia lírica que atravessa o texto. Entremeando cada segmento, uma vinheta emoldurando seu título. Estas vinhetas representam imagens diversas, apresentadas em cores esmaecidas e tons pastéis, que me fizeram lembrar a memória envolta numa espécie de halo que vai apagando a nitidez das lembranças de coisas vividas ou inventadas.
A apresentação material de Transatlântico provoca a ideia de envolver a lírica narrativa de Mariana Marques numa experiência concreta com a delicadeza. Imagine ler esse trecho, num livro com a aparência que descrevi: “vejo as despedidas de perto e o desespero contido e todas as coisas que se puseram a perder junto à tentativa (do viver e do chorar)”.
Ler assim é um mergulho em imagens de nuvens.
[MARQUES, Mariana. Transatlântico. Fortaleza: La Barca, 2009]
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
DE UM LIVRO BONITO A VALER: VINTE E SETE DE JANEIRO
De um dos livros do poeta Carlos Augusto Lima, retiro alguns versos que me fizeram parar e olhar a parede branca do quarto, sem nada, lembrando das minhas próprias estações:
falta de tudo nesta cidade:estações,
estações, estações.
escute a tácita recusa em subir as compras.
e nós moramos num mundo bonito.

(LIMA, Carlos Augusto. Vinte e sete de janeiro. São Paulo: Lumme Editor, 2008. p. 39)
falta de tudo nesta cidade:estações,
estações, estações.
escute a tácita recusa em subir as compras.
e nós moramos num mundo bonito.

(LIMA, Carlos Augusto. Vinte e sete de janeiro. São Paulo: Lumme Editor, 2008. p. 39)
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
INCANSÁVEL, IMPLACÁVEL: ADOLFO CAMINHA NA CIDADE
Essa vai para os meu alunos, às voltas com a Maria do Carmo, da Rua do Trilho, e seus devaneios de garota meio sonsa meio sonhadora, numa cidade cheia de hipocrisia. Foi um texto que publiquei no jornal O Povo, em 2007, quando completavam-se 140 anos do nascimento de Adolfo Caminha e 110 anos de sua morte. Este texto sofreu algumas poucas alterações (como é difícil alterar o estado das coisas...).
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Quando Adolfo Caminha retornou do Rio para Fortaleza, chegava numa situação relativamente confortável: era um jovem oficial da marinha (aos 21anos), já tinha dois livros editados e guardava a experiência de ter observado a vida literária e cultural da Corte e mesmo dela ter participado, através de algumas publicações esparsas em periódicos. Não é de espantar, portanto, que aquele jovem rapidamente se inserisse na vida cultural local, contribuindo para movimentá-la, numa atitude que poderia ser chamada de “esforço intelectual cearense”, algo que parece ter se mantido na tradição, principalmente quando lembramos de como é difícil fazer literatura (e publicar e se fazer ouvir) por estes lados.
Sânzio de Azevedo, na mais completa biografia do autor até hoje escrita, registra as diversas movimentações do escritor em torno da vida literária na capital da província. Entre a sua participação em agremiações literárias e a constituição de “afinidades eletivas” no campo das idéias, muito passou pelos olhares caminhianos, deixando a impressão de um artista-intelectual incansável no que concerne ao debate de ideias, mas também numa área que demandava esforço ainda maior: as práticas de divulgação da produção literária. E aqui Caminha terá uma lição a aprender: a necessidade de lidar com as adversidades de um meio nem sempre acolhedor às práticas culturais letradas, algo de que artistas e intelectuais têm reclamado, desde participantes dos mais prestigiosos grêmios literários do século XIX até representantes da contemporaneidade.
Nem por isso, Caminha desistiu de trabalhar pelas letras e ideias. Sim, porque esta parecia ser a sua vocação: trabalhar, apesar de tudo. Por exemplo, em 1889, meses depois de sua chegada aqui, já publicava nos jornais locais, tais como A Avenida, criado por Pápi Júnior (que se tornará amigo do autor de A Normalista) e outros homens de letras do período; ou no jornal Libertador, então um fórum de idéias e de literatura. Participará da Padaria Espiritual, a mais conhecida agremiação do século XIX, atendendo pelo “nome de guerra” Félix Guanabarino. Além disso, Caminha teve duas experiências como editor e jornalista na cidade: a Revista Moderna (1891) e O Diário (1892). Estes espaços criados, embora efêmeros, serviram de base e palco para a constituição de uma imagem da qual gozou entre seus contemporâneos: a do autor polêmico e combativo. Não à toa, Caminha entabulará contendas literárias – as famosas polêmicas – com alguns de seus companheiros de ofício, como Antônio Sales e Rodolfo Teófilo, causando repercussões nos meios letrados. Por último, ainda é de lembrar seu envolvimento com o Centro Republicano do Ceará, mostrando estar afeito a ideias políticas modernas em seu tempo.
Juntem-se a estas atividades as reuniões e conversas literárias com os amigos que aqui conquistou, os cafés tomados ao sabor da literatura e os escândalos na vida pessoal (seu envolvimento com uma mulher casada), formamos um retrato de escritor que se inscreveu visceralmente no cotidiano da cidade, por meio da cultura letrada, permeado por um temperamento destemido e empreendedor. O fato de Caminha sair do Ceará, voltar ao Rio de Janeiro, mas ainda manter um contato efetivo com a cultura local, nos dá a medida de um escritor que não deixou de pensar em deixar sua marca na cultura da província. Que A Normalista fale por si... Sendo uma história de luta contra as adversidades e tentativa de superação num meio hipócrita e desumano, poderia sintomatizar as lutas de um cidadão e escritor em favor da cultura e da convivialidade honesta. Mesmo que, para isso, tivesse que ser ranheta ou até implacável.
sábado, 11 de julho de 2009
MATERIALIDADE DOS LIVROS
Desde que fiz meu mestrado em Literatura Brasileira, algo me intriga bastante: a tendência de uns tempos para cá de surgirem livros que subvertem o formato convencional do que todo leitor imagina como um "livro". Daí me veio a idéia de falar sobre esse assunto. Na minha dissertação de mestrado, que era sobre Clarice Lispector, já toquei neste assunto do livro como objeto cuja materialidade propõe significações, algumas vezes muito próximas do texto que apresenta, outras nem tanto.
Mas este meu interesse se ampliou e acabou que foi virando uma espécie de pesquisa informal, que vai se configurando ao sabor do tempo. Nos últimos dois anos, sempre que encontro algum livro (de preferência prosa ou poesia, embora não exclua necessariamente outras vertentes), adquiro e começo a refletir sobre eles.
A partir destas aquisições, surgiu-me a idéia de começar a ler estes livros no que os textos podem oferecer como sentido, mas também "lendo" a materialidade destes livros, como algo que "diz" coisas.
então, se você lê este blog e sabe de algum livro que se enquadre numa definição de formato inusitado, indique-o, pois quero muito formar um acerto com experiências materiais de diferentes procedências.
Agradeço.
Mas este meu interesse se ampliou e acabou que foi virando uma espécie de pesquisa informal, que vai se configurando ao sabor do tempo. Nos últimos dois anos, sempre que encontro algum livro (de preferência prosa ou poesia, embora não exclua necessariamente outras vertentes), adquiro e começo a refletir sobre eles.
A partir destas aquisições, surgiu-me a idéia de começar a ler estes livros no que os textos podem oferecer como sentido, mas também "lendo" a materialidade destes livros, como algo que "diz" coisas.
então, se você lê este blog e sabe de algum livro que se enquadre numa definição de formato inusitado, indique-o, pois quero muito formar um acerto com experiências materiais de diferentes procedências.
Agradeço.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
FRAN MARTINS: MANIPUEIRA (CONTOS DO JUAZEIRO DO PADRE CÍCERO)
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Muitas pessoas podem até nunca ter ouvido falar em Fran Martins (1913-1996) (e isso não quer dizer muita coisa – outro dia uma estudante universitária de um curso da área de ciências humanas me perguntou quem havia sido Cecília Meireles...). Ainda assim, muitas pessoas da área jurídica sabem quem foi ele pelos livros jurídicos que escreveu. E ainda há as pessoas que lidam com literatura produzida no Ceará, que têm alguma idéia do que ele fez.
Então, quando se diz alguma coisa sobre Fran Martins e sua literatura, é inevitável mencionar A rua e o mundo (1962) ou Dois de Ouros (1966), duas de suas conhecidas narrativas longas, através das quais o escritor representou a cidade do Crato, em seu cotidiano e seus dramas. Aliás, ao falar da ficção de Fran Martins, a menção à sua obra romanesca é algo natural, já que ele publicou mais romances que livros de contos.
Mas curiosamente o escritor iniciou e findou sua carreira como contista, com Manipueira (1934) e A Análise (1989), respectivamente. Além destes dois volumes de contos, ainda publicou Noite Feliz (1946), Mar Oceano (1948) e O Amigo de Infância (1960). Com cinco livros de contos, Fran confirma o que já constitui seu foco de interesse no romance: a representação da vida do interior cearense, sobretudo o Cariri, como uma espécie de microcosmo de uma realidade com aspectos comuns ao Nordeste como um todo.
Somente em A análise, temática e linguagem não se voltam para aspectos regionais, como observa Rachel de Queiroz, no texto de apresentação do livro, complementando que Fran teria atingido seu primor na construção do texto curto. Mas as suas outras coletâneas de contos abordam algum aspecto da mentalidade e da cultura nordestina, representando-as à maneira da principal tendência da ficção praticada por sua geração, conhecida como a do “Romance de 30” , da qual fez parte a própria Rachel, além de Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos, entre outros.
Estes autores preocuparam-se principalmente com certos problemas sócio-econômicos da região (seca, decadência da cultura açucareira, coronelismo, cangaço, fanatismo religioso, etc.) que, num primeiro momento, acreditavam ser os de maior alcance cultural; daí a necessidade de praticar uma narrativa mais aparentada com o Realismo-Naturalismo, atualizando-o criticamente, ancorando-se num compromisso de aderir à linguagem do povo.
O primeiro livro de Fran Martins afirma uma posição ligada à escrita de “invenção do Nordeste”, para usar uma expressão do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. (A invenção do Nordeste e outras artes, Cortez Ed., 2001), através da qual reavalia o discurso da ficção nordestina de 30, apontando sua heterogeneidade, mas também mostrando a possibilidade de uma intencionalidade comum aos diversos escritores e discursos. Este discurso de “invenção do Nordeste”, que se compromete com temas e imagens específicas, pode ser visto como um dado importante na compreensão de Manipueira, estréia de Fran Martins não só no conto, como na própria literatura “livresca”.

A sua mais recente edição (Ed. UFC, 1999) mantém, na sua materialidade, os elos da tradição que o próprio subtítulo (“Contos do Juazeiro do Padre Cícero”) demanda. Reproduz-se o fac-símile da ilustração de capa para a modesta primeira edição, em que um rosário se enrola a um punhal, de onde pingam algumas gotas de sangue. Já aqui tem-se a referência a duas idéias exploradas no livro: a religiosidade bastante marcada naquele espaço, sendo traduzida pelo autor em fanatismo religioso; a violência das relações sociais, em que a morte praticada por jagunços, capangas, cangaceiros e matadores é uma constante, algumas vezes corporificando a ambivalência de seu ambiente cultural: violento, porém devoto.
A maior parte dos dez contos enfeixados no volume traz personagens que correspondem a esta referencialidade. De um lado, o leitor depara-se com beatas e beatos, romeiros, tiradores de terços, devotos de toda ordem; sendo que o Padre Cícero está onipresente em todas as narrativas, como a anunciar a permanência praticamente icônica de sua figura no imaginário cultural nordestino, como espaço simbólico de produção de significados e imagens que, pela sua força, alcançam usos no cotidiano dos sujeitos que de alguma forma se utilizam dessa imagem e de seus possíveis significados.
Por outro lado, o leitor encontra Lampião e seus cangaceiros, jagunços “em formação”, “cabras” matadores (porém devotos), coronéis encomendadores de mortes, etc. O autor junta dois fenômenos que geram um amálgama temático polêmico: o fanatismo religioso associado à violência das relações sociais em geral, com incursões pelo imaginário do cangaço, que, por sua vez, volta seus poucos temores para o respeito à ordem religiosa e a seus representantes.
Ao ler estes contos, pode-se até não gostar, por causa da temática, mas o clima de tensão conseguido em cada um dos textos me diz que o contista atingiu algo bem interessante: sugerir que violência e religião passeiam inesperadamente juntas. Quer ideia mais atual?
Miguel Leocádio Araújo
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