segunda-feira, 14 de julho de 2014

“CAIO E LÉO”, EXPERIÊNCIA DE ESPECTADOR (Parte I)



Fui rever a peça “Caio e Léo” no Teatro Universitário. Já tinha visto no Teatro do Dragão do Mar e havia ficado impressionado com o texto e com o trabalho da direção e dos atores. Por muitas questões, que me afetam pessoalmente. Ainda assim, é novidade eu escrever aqui sobre minha experiência diante de um trabalho artístico no campo das artes cênicas na contemporaneidade, já que olho muito, mas não escrevo nada, nem sei por quê... De qualquer modo, são muitas as questões que acredito estarem implicadas no espetáculo e que me mobilizam a escrever sobre.



Inicialmente, é a solidão de Caio (Ari Areia) que ressalta: ele está inteiramente só, sob uma luz que sugere o pôr do sol, tendo como trilha o barulho do mar. Ele espera alguém que não veio, possivelmente a namorada; o rapaz acha que o relacionamento terminou. Acaba por conhecer seu avesso, Léo (Tavares Neto), o desconhecido que quer se lançar ao infinito do mar e em seu gosto pelo nado, sendo impedido pelo medo de Caio. A impressão de solidão se desfaz com esse encontro, mas, em outros momentos, ela é retomada pela ausência de um dos atores. Ainda assim, a contradição entre eles permanece: Caio é o pragmático especialista em planejamento, com vida organizada, hora marcada e caminhos bem traçados; Léo é o intuitivo fotógrafo de cadáveres que deseja captar o vento em suas lentes – livre, experimentador, belo em sua coragem. O medo e o desejo se encontram.
O tema da negação amplia as contradições apresentadas no texto: Caio quer ser fotografado por Léo, mas este se nega a fazê-lo. Por outro lado, Léo convida Caio a mergulharem juntos, mas este recusa. Assim, o não comparece constantemente no diálogo e no desenvolvimento dessa relação, em que as diferenças e as contradições sobressaem. Numa cena, Caio perdeu a localização de seu carro e não quer ir embora com Léo, que havia sugerido dormirem juntos no apartamento deste. Quando o carro é achado, é Léo quem não quer ir embora com Caio, que havia proposto saírem juntos dali. Esses muitos nãos parecem dizer que aqueles dois não encontram uma via de entendimento, construindo um relacionamento baseado na impossibilidade.
A tensão amorosa se materializa pela expressão do desejo, mas também por uma mal contida violência (tanto verbal quanto física, em cenas que funcionam como clímax de cada um dos desentendimentos enfrentados pelos personagens). A tensão é, assim, um erotismo ambivalente, que vai da tentativa de carinho à recusa quase violenta desse carinho, bem como à realização plena da conjunção erótica. Aqui o trabalho dos atores é essencial, no sentido de modular essas nuances: do olhar desejante e terno ao gesto discreto de repreensão; da fala expansiva e amorosa ao grito expressando ira ao outro.
Na realidade, “Caio e Léo” fala dos descompassos entre as pessoas nos relacionamentos. A contradição reside no seguinte: numa relação de amor entre iguais, não se pode ter posturas de vida e de comportamento mais diferentes e contraditórias do que as de Caio e Léo. Trata-se do contraste entre o subjetivo e o objetivo, entre a vontade de viver e experimentar e a vontade de controlar a vida e a experiência, entre a volatilidade dos sentimentos e a concretude desses mesmos sentimentos. É a complexidade da própria vida dos indivíduos em processo de entrega; e os relacionamentos afetivos, eventualmente, não dão conta dessa complexidade, gerando a narrativa desencontrada, a fala interrompida, o gesto fundo da dor. Nesse sentido, a peça tematiza as relações amorosas atravessadas pelo desamor.



[Continua]

“CAIO E LÉO”, EXPERIÊNCIA DE ESPECTADOR (Parte II)



O trabalho com a luz é elemento que colabora para a construção da narrativa de “Caio e Léo”. Um dos momentos mais climáticos da peça ocorre pela formação de sombras na parede de fundo do palco, enquanto no centro do palco se dá uma cena de intensa intimidade e tensão erótica entre os personagens: o público vê projetados os corpos dos atores da cintura para baixo, numa sugestão de erotismo bastante plástica. Nesse sentido, é possível que a direção de Yuri Yamamoto tenha intencionalmente dialogado com as artes visuais – não se deve esquecer que um dos personagens é fotógrafo, ou seja, já há uma abertura no próprio texto de Rafael Martins a esse diálogo. A própria luz do espetáculo remete ao universo do fotógrafo Léo; as várias direções e intervalos em que a iluminação ressalta ou se esmaece parece querer nos lembrar flashes de uma câmera selecionando o que deve ser captado pelo olhar.




Outro momento plástico é quando Caio, empunhando um foco de luz, movimenta-se com um boneco, ele mesmo, afinal – quase numa performance solo de Ari Areia –, também com um trabalho de iluminação muito sugestivo (porque poético): a ideia de pequenez e de solidão confirma o modo como a trajetória de Caio começa: em solidão e silêncio diante da luz que o atravessa. Isso se assemelha ao trecho da distribuição de carros nos estrados que servem como palco, à maneira de um artista visual começando a montar uma de suas instalações: na cena, a ideia de perder-se e perder um objeto é mote para se notar que Léo é o contraponto de Caio, mas já relativizando-se esse contraponto. O fotógrafo leva a vida aos saltos, enfrentando os riscos, lançando-se ao desconhecido; no entanto, ele também procura a estabilidade do amor. Já o especialista em planejamento leva uma vida onde só deve haver espaço para a certeza e a previsibilidade; no entanto, ensaia outra posição para si e já admite correr riscos. A influência do amor e do desejo opera mudanças no comportamento dos personagens.
Cada elemento da montagem de “Caio e Léo” está carregado de sentido. Um exemplo disso é o fato de a ação transcorrer predominantemente em cima de estrados que representam um píer à beira-mar, mas também outros espaços. A simetria desse objeto de cena remete ao cartesianismo de Caio, aos seus caminhos bem traçados, aparentemente sem espaço para quebras ou desvios; enquanto o jogo de iluminação do espetáculo remete ao fotógrafo, como já mencionado. Inclusive, a inversão da direção da luz (ora de cima para baixo, ora de baixo para cima) é algo que me pareceu dividir as cenas, mas também as experiências dos dois rapazes. Parece que a luz que vem de debaixo dos estrados – nos intervalos entre as cenas – tenta sublinhar a reorganização da vida e os vazios entre as falas, que por sua vez apontam para a necessidade de se preencher esses vazios com as falas de um amor em construção, desenvolvendo uma paixão cada vez mais difícil.
Por outro lado, os sons que permeiam a cena remetem também ao sonho de Léo, no que há de captação do vento, já que o barulho do mar pontua em vários momentos. Ao mesmo tempo, a trilha sonora – por favor, produção, divulgue as músicas que estão na peça! – compõe um clima de delicadeza associada à possibilidade da realização do amor, mas também de melancolia, o que cria, para o espectador, no meio do espetáculo, uma dúvida se o amor se efetiva ou não.



Nas duas apresentações que vi, os efeitos são um pouco diferentes. No Teatro do Dragão do Mar, tem-se a impressão de maior efeito visual, em alguns momentos, pela própria estrutura do palco, mais amplo. Já no Teatro Universitário, tive a impressão de maior proximidade com o público, algo condizente com o intimismo do próprio texto. Nas duas apresentações, os atores cumpriram com sensibilidade os seus papéis, nas modulações de voz, na contenção dos gestos e na expressividade própria de quem vive outras vidas. Fiquei pensando: atores tão jovens e já tão expressivos... Os dois em cena me lembraram uma música do Suede (“The wild ones”, não sei por quê. Depois de ambas as apresentações, fui ouvir essa música pensando na peça...). Incluo autor, diretor e artistas da técnica do Outro Grupo de Teatro entre esses “wild ones” que fazem sonhar. “Tem coisas que, mesmo que a gente não veja, elas existem”, diz Léo. A beleza, a gente vê e ouve. Muito nitidamente.

“Caio e Léo”, no Teatro Universitário, Avenida da Universidade, 2210, Benfica, Fortaleza, durante todo o mês de julho de 2014, aos sábados e domingos, às 19 horas. Texto de Rafael Martins. Direção de Yuri Yamamoto. Com Ari Areia e Tavares Neto.

Miguel Leocádio Araújo

P.S.: Não sou crítico de teatro, nem jornalista. Só escrevi sobre uma peça de José de Alencar (“O Rio de Janeiro – Verso e reverso”), para uma publicação acadêmica. Mas gosto de ler teatro e ver peças por aí. Apenas me arrisquei a escrever sobre um espetáculo que me fez ficar pensando na vida... 




terça-feira, 8 de julho de 2014

BIBI IN CONCERT (Um relato de Caubi Tupinambá)

[Esses dias, um grande amigo enviou um texto bonito sobre o espetáculo de Bibi Ferreira, que deixa as pessoas emocionadas. Com autorização do autor, transcrevo aqui o relato que, inicialmente, era para circular somente entre amigos.]





Não precisei ler uma biografia mal escrita ou parcial, produto de um ghost writer, cheia de meandros e atalhos para impressionar e vender; apenas mais um best seller. A biografia de ontem li com os olhos, ouvidos e todos os sentidos, incluindo aí o coração. Tudo pela boca da própria biografada. Aos 92 anos de vida, sobe ao palco uma diva de nome Abigail Izquierdo Ferreira, filha do não menos talentoso Procópio Ferreira e de outra artista, a espanhola Aída Izquierdo. Conhecemos a artista por seu nick Bibi, Bibi Ferreira. Talvez parasse por aqui, pois assim deixaria de passar a escrever sobre o óbvio, o que todos conhecemos de uma mulher cujo nome é sinônimo de talento, audácia e vida. Os 92 anos não a impedem de ser mais lúcida, transparente, autêntica, atual e – pasmem! – mais atenta ao mundo do que muitos jovens recém-saídos de nossas escolas e universidades.
Bibi é expressão de vida, de juventude, de respeito e preocupação com primor e qualidade artística, estética, ética. Com sua performance, ela nos salva da mediocridade do cotidiano, do urbano rápido das redes e nos faz adentrar em um universo biográfico dos mais originais; um universo tão vívido, que insiste em se atualizar e ir contra os usuais estereótipos de velhice e juventude. Vejo como muitos de nós somos velhos e como poderíamos com ela aprender a ser jovens, a nos desvencilhar de valores tacanhos, que nos são impostos e nos impedem de ir além, de transcender limites.
É como digo: “Se no Brasil houvesse somente Bibi Ferreira, esse seria motivo suficiente para ter muito orgulho de ser brasileiro”.
O espetáculo de Bibi não é apenas um concerto, mas um passeio sumarizado por si mesma e seu companheiro de palco, maestro que rege bela orquestra, dando à apresentação desse resumé existencial força e fio condutor. O epicentro dos acontecimentos gira em torno dos seus doze, treze anos simbólicos, sempre evocados ao se referir a suas memórias. Sejam esses doze ou treze anos no século XVII ou XX, eles sintetizam momentos cruciais de sua história de vida e de sua arte, que se confundem e se mesclam. Vê-la ser conduzida ao centro do palco por seu diretor, que também participa, em parceria de uma chanson de Piaf, revela a fragilidade física de quem já se aproxima do século de vida, mas também evidencia a força de quem, com voz jovem e afinada, nos faz esquecer esses limites impostos a um corpo que se ousa elegante e afável – e por isso se deseja abraçar, acalantar e proteger. Uma fortaleza revelada na memória impecável, nos sonoros registros que levariam à inveja jovens e outros seres cantantes.
Bibi ainda me prestou um serviço cultural ao conectar, por meio de seus traços biográficos, o canto em uma Hollywood remota ao musical brasileiro do qual foi precursora, a compositores e cantores brasileiros originais, de quem foi amiga, contemporânea e intérprete, a músicas do rádio, a ângelas, elisetes e noéis, mas também a gotas d’águas de chico. Nos deleita com arte, ao colocar nas óperas, adonirans, caymis, nasser e soares só para dar alguns exemplos. Não faltou ao show uma deixa à bossa nova e ao seu cativo culto à Piaf, que encarna com esmero e perfeição e de quem se confessa admiradora na arte de cantar e na arte de viver: “– Edith conseguiu um marido com a metade de sua própria idade, o que não ocorreu a mim. Era uma mulher intensa no amor, inclusive em seu sentido prático...” Bibi é a prova, de que a libido não tem idade, não morre, quando não se quer.
Nesse sentido, essa viagem aos 92 anos por sua história é também uma viagem pela história da arte dramática e da música no Brasil e – por que não? – no mundo. O melhor: nada disso é sua pretensão, tudo isso é meu desejo, que por ela foi despertado através de seus despretensiosos sinais nessa hora de inefável companhia de uma grande dama universal.
Talvez tenha sido esse um dos maiores privilégios que pude ter neste ano de 2014, o de compartilhar das memórias vivas, sobre um palco, de uma deusa, que vem e nos salva do óbvio e nos leva ao êxtase, sem sequer saber que é capaz de tudo isso. Quiçá por isso tive de me sensibilizar tanto e até ensaiei chorar em certos momentos do seu show, porque testemunhei como da fragilidade humana pode-se obter tanta força e arte para justificar e dar sentido à vida.
Caubi Tupinambá, Teatro Frei Caneca SP, 4 de julho de 2014.

[Caubi Tupinambá é psicólogo, professor da UFC, Mestre em Psicologia pela Universidade de Salzburg-Áustria, Doutor em Psicologia pela Universidade de Giessen-Alemanha, Pós-Doutor, pela Universidade de Madri-Espanha. Entre seus livros publicados, destaco Timor do sol nascente e outras crônicas, Fortaleza, Omni, 2004.]

sábado, 3 de março de 2012

MILTON DIAS E A CRÔNICA COMO ESPAÇO PARA A MEMÓRIA



Que a crônica é um gênero de difícil caracterização, disso todos sabem. Os livros didáticos e manuais de literatura encontram sempre as mesmas dificuldades para descrever este que parece ser o mais fugidio dos gêneros literários modernos. Nem por isso, a crônica deixa de ocupar o espaço dos jornais, das revistas e dos modernosos blogs, quer sejam eles jornalísticos ou não. Mais ainda: a crônica também ocupa as páginas dos livros (estes objetos de materialidade muito mais duradoura do que poderiam supor os profetas do e-book), quando seus autores resolvem resgatá-las do esquecimento a que se destinam os veículos periódicos, sempre superados com a próxima edição. Foi nessa perspectiva de resgate que Milton Dias trabalhou, ao organizar suas coletâneas de crônicas. Aliás, é bom ressaltar que a palavra “resgate” passa por um mau momento, em que muitos preferem substituí-la por outros termos: “requalificação”, “ressignificação” ou qualquer outra que navegue na pasmaceira do discurso politicamente correto. No entanto, essa palavra, “resgate”, aplica-se bem à ideia que pretendemos desenvolver neste texto, que por sinal poderia intitular-se “a crônica como resgate da memória do cronista”.
Sim, resgate da memória parece ter sido uma das tarefas no árduo trabalho de cronista encetado por Milton Dias em quase 30 anos de produção. Muitas dos textos presentes em Entre a boca da noite e a madrugada, por exemplo, foram elaboradas exatamente para fixar no branco do papel as tintas às vezes nítidas às vezes esmaecidas das lembranças guardadas na misteriosa caixa preta que parece ser a memória individual. Como se não bastasse a revelação de si, trazida pela evocação memorialística, ainda serve de sobremesa o registro da experiência coletiva, aquela parte de seus textos que nos permite identificar as vivências que ultrapassaram o individual, servindo para enquadrar a práticas sociais de um grupo, de uma coletividade, de um povo. Daí os estudiosos atribuírem-lhe o memorialismo como característica, pois este não se configura apenas como resultado de uma história individual, mas também como apanhado de palavras, gestos, ideias, costumes, fatos compartilhados por muitos.
Às vezes, este memorialismo realizado por Milton Dias encontra no pequeno gesto cotidiano uma expressão poética, materializada em relatos sobre o quase nada: um passarinho (e outros) com as alegrias proporcionadas ao dono (“Os golinhas”), uma morosa tarde de domingo (ou de qualquer dia) usada como mote para lembrar de outros tempos e de outros lugares, com seus apelos sensoriais (“Domingo à tarde”, “Domingo à tarde, outrora” e “Tarde antiga”), as chuvas do “inverno” a evocar a alegria de um sertão mediado pelo véu de uma fartura em tons de verde (“Vou-me embora pro sertão”). Neste tipo de lembrança, tudo vale para tornar o texto mais saboroso: um cheiro de café, o pio de um pássaro de estimação, o gado se lamentando de tanta preguiça, o som de um instrumento musical, o frio da madrugada, os filmes e os cinemas decididos no sabor do improviso. E mesmo as pessoas.
Mas as pessoas representam capítulo à parte neste memorialismo. Às vezes, são figuras que o cronista faz questão de lembrar pelo que elas têm de notável, levando-as a adquirirem algum renome na cidade (Alba Frota, em “Alba”, ou Antônio Girão Barroso, em “Não é doce morrer no mar”). Por outro lado, o indivíduo anônimo, mas igualmente notável pela figura humana que representava, também comparece, sem sabermos ao certo se estes “personagens” realmente fizeram parte do convívio afetivo e familiar do cronista: uma vendedora de flores, dublê de poetisa e namoradeira de plantão (“Jurema”), a figura meio cômica de uma velha tagarela que contava histórias mirabolantes (“Ana Gerviz”), uma mulher sedutora, interesseira e conspirativa que iludia os rapazes dos quais se aproximava, arrasando corações (“Nevinha”), o próprio avô de Milton Dias, a respeito do qual ele escreve um texto que é uma verdadeira biografia afetiva, sem a precisão das datas fechadas (“O avô”), entre muitas outras pessoas.
Nessas crônicas memorialísticas, o escritor registra um outro tempo vivido, com tonalidades nostálgicas de épocas em que, no espaço urbano, até para desobedecer o pai ou para desrespeitar uma norma estabelecida era preciso agir com uma certa elegância ou com uma certa fineza no trato. E a fixação dessa nostalgia do passado, embora irrite alguns ansiosos pelo atropelo do espaço alheio, é que dá força de permanência da memória aos textos de Milton Dias. É assim que o escritor delimita o seu espaço, em seu texto, como lugar para a sobrevivência da cordialidade, algo que parece ter definitivamente ter ficado no passado. Pelo menos para alguns.

[Escrevi este texto para um jornal de circulação escolar, em 2009, quando o livro Entre a boca da noite e a madrugada estava na lista das leituras sugeridas para o vestibular da UFC. Agora modificado, coloco-o aqui, por conta da admiração que tenho pelo cronista Milton Dias e pela leveza de suas crônicas.]

Miguel Leocádio Araújo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

BREVE HISTÓRIA DA PADARIA ESPIRITUAL, DE SÂNZIO DE AZEVEDO


Conheci Sânzio de Azevedo, quando passei a cursar a disciplina de Literatura Cearense, por ele ministrada, no ano de 1992, no Curso de Letras da UFC. A sua empatia com os alunos era imediata. Começando o semestre letivo ainda meio tímido, logo passava às suas conhecidas brincadeiras, fazendo o estudo da literatura sair dos pedestais da sisudez, lugar no qual alguns insistem em mantê-la. A maneira brincalhona de ser cativava os alunos e parecia ser algo, de alguma forma, herdada da Padaria Espiritual, tema que estuda desde sempre. Tanto é que, recentemente, foi lançada a sua Breve história da Padaria Espiritual, em volume bem cuidado pelas Edições UFC (Fortaleza, 2011).

O livro reúne as qualidades antes mencionadas, constituindo uma verdadeira lição para os pesquisadores que se lançam no árduo trabalho de historiografia literária, mas não só. Trata-se de uma escrita que combina a leveza (o que torna a leitura agradável) com o detalhamento necessário a produções dessa natureza, sendo que a historiografia apresentada no livro de Sânzio não é a tradicional, unicamente amparada em datas e fatos. Ao contrário, o ensaísta entremeia suas descobertas ao trabalho interpretativo, já que não se furta a apenas transcrever poemas e trechos de outras produções, explicando-os, aclarando-lhes os sentidos, quer seja no contexto da atuação literária e social da Padaria, quer seja no âmbito da expressão textual em si.

Neste sentido, a historiografia e a crítica literária se irmanam para resultar num estudo que acena para possibilidades de leituras da tradição, dentro de perspectivas multifacetadas: a história literária não vive sem o exame acurado das realizações de seus atores (no caso, os padeiros) na cena literária à qual pertencem, mas também não existe sem a visão (por mais breve que seja) dos registros (propriamente literários ou não) deixados por estes mesmos atores.

Além disso, há a preocupação de, com esta Breve história da Padaria Espiritual, corrigir alguns equívocos que foram se arrastando ao longo do tempo, bem como de oferecer, aos leitores das novas gerações (que não tiveram ainda a oportunidade de conhecer o alentado estudo A Padaria Espiritual e o simbolismo no Ceará, também de Sânzio de Azevedo) uma iconografia da agremiação e, como documentação, um retrospecto redigido pelo próprio idealizador da Padaria.

Na ocasião do lançamento da Breve história, no dia 03/10/2011, no auditório da Livraria Cultura, em Fortaleza, pôde-se notar como o tema desperta interesse e como o nome de Sânzio de Azevedo convida as pessoas ao encontro: o auditório lotado, para ouvir (e rir com) as histórias da Padaria, contadas pelo autor, em seu bom humor de sempre, com mediação da também escritora Socorro Acióli, que foi premiada com É pra ler ou pra comer: A história da Padaria Espiritual para crianças (Fortaleza, Ed. Demócrito Rocha, 2005). Uma reunião de sorrisos, casos pitorescos, simpatia, prazer e alegria, como talvez esperado em um lançamento que tivesse como tema a famosa agremiação fortalezense.

A empatia do público com a Padaria é a mesma que os leitores/admiradores têm com Sânzio: em ambos percebe-se a leveza com que se trata de assuntos ligados à literatura, fazendo com que o texto literário chegue mais próximo das pessoas, sem o peso da sacralização.

sexta-feira, 4 de março de 2011

BEETHOVEN EM FORTALEZA


No dia 3 de março de 2011, deu-se início a uma série de concertos em que as nove sinfonias de Ludwig Van Beethoven serão apresentadas no palco do Theatro José de Alencar. A ideia partiu do maestro Gladson Carvalho, regente da Orquestra Filarmônica do Ceará, que planejou executar cada uma das famosas sinfonias a cada mês, realizando algo inédito no estado, ao explorar a obra de um dos maiores compositores de todos os tempos.
O Ceará não tem sido conhecido por promover a música erudita, a despeito de dado ao Brasil pelo menos dois nomes de relevância até internacional nesta área: Alberto Nepomuceno e Eleazar de Carvalho. No entanto, o esforço da Orquestra Filarmônica do Ceará, na pessoa de seu maestro, tem se revelado incansável na meta de popularizar a música erudita em suas várias vertentes.
No caso do primeiro concerto da temporada 2011, teve-se um exemplo de como a cidade trata este tipo de música. O Theatro José de Alencar apresentava um público bastante pequeno, porém atento e bem educado. Dessa vez, não vi pessoas falando ao celular ou comendo batatas fritas em sacos metálicos, daqueles que fazem um barulhinho que verdadeiramente desconcentra quem deseja ouvir a apresentação. Também não vi crianças impacientes a falar mais alto do que qualquer instrumento em solo. E havia algumas crianças, mas estas aparentemente assistiam calmas ao concerto, o que é inédito, pelo menos para mim.
Além da atenção dada ao espetáculo, o público pareceu verdadeiramente apreciar a música, que foi entremeada de pequenas “aulas” dadas pelo maestro e por músicos representantes de cada um dos naipes de instrumentos, o que foi ao mesmo tempo informativo e divertido. Esta modalidade de apresentação foi batizada pelo maestro como “Café Concerto” e visa a formar a platéia de música clássica.
O programa também foi uma aula de história da música, em termos cronológicos. A primeira peça foi o “Brandenburgo nº 3”, de Bach, executado de maneira precisa, perfeita e com uma emoção que podíamos ver na postura do maestro e na expressão dos próprios músicos, que tocavam com uma visível paixão, talvez por terem “entrado no clima” de uma das composições mais emocionantes do mestre barroco. Viu-se um notável empenho da Orquestra como um todo; e só quem vem acompanhando o trabalho dela nesses últimos anos pode realmente verificar os saltos de qualidade técnica no domínio dos instrumentos e na sincronia entre cada naipe, bem como na própria postura de palco.
A segunda parte foi a abertura de “Egmont”. Nesta, a orquestra cresceu, outros músicos (que não faziam parte da apresentação de uma obra barroca) passam a compor o conjunto necessário a uma récita clássica; e a música de Beethoven, o mestre de Bonn, como um dos últimos grandes compositores do período clássico se aplica bem ao intento de mostrar como evoluiu uma orquestra na história da música. A beleza de “Egmont” seria complementada pela “Primeira Sinfonia”, em que a intensidade do envolvimento dos músicos com aquilo que estavam realizando no palco ficou ainda mais visível, tanto nos movimentos vigorosos do maestro quanto na sincronia de movimentos dos músicos com seus instrumentos. Pessoalmente impressionou-me o último movimento da Sinfonia, o “Adágio e Allegro Vivace”, com sua marcação precisa num crescendo alternado a momentos de leveza. Difícil descrever com palavras. Não foi à toa que alguns gritaram “Bravo!” no encerramento da peça...
Por último, a cena inicial do “Lago do Cisne”, de Tchaikovsky, foi executada com igual perfeição. Já vi a Filarmônica do Ceará apresentando esta peça, mas desta vez foi realmente ímpar, vigorosa e emocionada. O trecho inicial, com os violinos e as violas vibrando para a entrada do solo de oboé, com as cellos e os contrabaixos assumindo suas posições aos poucos, vai dando a impressão de uma música que cresce, se encorpa, ganha um vigor cujo ponto alto é a junção de todos os instrumentos que vão expressar toda a dramaticidade necessária a esta peça recentemente tornada mais popular como trilha sonora do filme “Cisne Negro”. Uma apresentação única.
Para quem aprecia música erudita, sai-se do Theatro com a alma recompensada e com a certeza de que outras pessoas podiam sentir o mesmo.